Delírios da Vadia
Delírio, por Olavo Bilac
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
"Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!"
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
"Mais abaixo, meu bem! " num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
"Mais abaixo, meu bem! " disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
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E no que os desejos soltos e realizados de Bilac, ou os meus, afetariam o moral alheio?
Moral
Acepções
■ substantivo masculino
1 doutrina ou comportamento filosófico ou religioso que elege a moral como valor universal, em detrimento de outros valores existentes
Minha religião tem apenas um mandamento: Se não te faço mal, dos meus pecados e dores na consciência, cuido eu.
Juntos começavamos uma vida, e quando resolvi , não pedir beijos mais abaixo, mas falar dos pensamentos, pensamentos, que a minha mente fértil produzia, ele me respondeu dizendo que mulheres casadas não faziam, não falavam certas coisas.
Não é à toa que o substantivo é masculino.
A putaria que poderia ser gozo e riso à dois, vira suplício... gozo em detrimento de outros valores existentes. Que valores? A que custo?
E são os tais valores tão enraizados que metem o medo milenar que a gente carrega, mesmo depois da absolvição, de encontrar paraísos?
E quem disse que ela não é CORRETA?
Amor, Adélia Prado
A formosura do teu rosto obriga-me
e não ouso em tua presença
ou à tua simples lembrança
recusar-me ao esmero de permanecer contemplável.
Quisera olhar fixamente a tua cara,
como fazem comigo soldados e choferes de ônibus.
Mas não tenho coragem,
olho só tua mão,
a unha polida olho, olho, olho e é quanto basta
pra alimentar fogo, mel e veneno deste amor incansável
que tudo rói e banha e torna apetecível:
cadeiras, desembocaduras de esgotos,
idéia de morte, gripe, vestido, sapatos,
aquela tarde de sábado,
esta que morre agora antes da mesa pacífica:
ovos cozidos, tomates,
fome dos ângulos duros de tua cara de estátua.
Recolho tamancos, flauta, molho de flores, resinas,
rispidez de teu lábio que suporto com dor,
e mais retábulos, faca, tudo serve e é estilete,
lâmina encostada em teu peito.
Fala.
Fala sem orgulho ou medo
que à força de pensar em mim sonhou comigo
e passou o dia esquisito,
o coração em sobressaltos à campainha da porta,
disposto à benignidade, ao ridículo, à doçura.
Fala.
Nem é preciso que amor seja a palavra.
"Penso em você" , me diz e estancarei os féretros,
tão grande é a minha paixão.
postado por: DANIELA DOMINGUES 9:10 PM