VADIA & CORRETA - Engasguei.
Fiquei muito tempo sem escrever. Na verdade, sem escrever aqui.
ENGASGUEI.
Engasguei quando quis falar do meu amor.
Não é louco isso? Engasgar para falar de quem a gente ama? Na verdade, há uma semana eu tinha o texto pronto, mas como estava escrevendo diretamente no blogger, quando fui salvar, o tempo do "log in" tinha se esgotado e eu perdi tudo, inclusive a paciência para escrever de novo.
Antes, tudo que eu escrevi, pareceu ruim demais para meu amor.
Então, hoje eu me ordenei que "desencruasse" isso aqui. Primeiro porque PRECISO falar dele para vocês. Segundo, porque há muitas coisas novas para serem ditas e que estão na fila esperando só este
post desimpedir a passagem.
O MEU AMOR
Ele brincava, perguntando onde estava o pezão branco dele, esperando que eu mostrasse o pé e dissesse: "Ó, ó, ó!"
Ficava bravo porque eu pedia para acompanhá-lo até a casa da minha avó, não dava atenção para a velha e corria para brincar com as crianças da rua. [Velha? Minha avó não era este tipo de avó amável de comercial...]
Me ensinou a andar de bicicleta e me levava à missa.
É inteligente, viu? Ele tem a letra toda redondinha, desenhada. Uma perfeição para quem só estudou até a quarta série, na roça. E foi com essa letra que escreveu uma "composição" sobre as árvores, quando eu disse que a professora tinha pedido que os pais dos alunos falassem da natureza. Eu tinha uns 10 anos. Guardei o que ele escreveu até hoje. Criei vergonha na cara e não levei a mentira do dever de casa à frente. Fiz eu a minha própria redação, inspirada pela dele. [Ou talvez eu quisesse aquele pedaço de papel, com frases tão infantis quanto a minha idade na época, só para mim.]
Hoje, já não tem mais o bicão. O "Bicão" é conhecido da família e pelos que freqüentaram nossa casa. Assistindo TV ou lendo jornal, falávamos: "Desmancha o bico!", só para encher. Ele desmanchava e antes de notar, fazia de novo, uma espécie de tique. A cara sempre amarrada assustava um pouco os meus amigos.
Brigamos muito e acho que as afrontas nos aproximaram.
Trabalhava duro, não era de muitas palavras, sempre decidiu tudo sem consultar. Nossa sorte é que sempre decidiu certo. Dedicou-se como sabia: provendo o material.
Mas tem defeitos, comete erros. E é bom saber que os tem, assim, estou certa, meu amor não é fantasia.
Uma vida inteira sem férias o fez cair de cama perto dos seus 70 anos. Foi um susto para nós que víamos ali uma fortaleza.
Mas foi providência, ele diria, divina.
Doente, experimentou ser mimado, e gostou.
Deixou-se ser amado e viu que era bom.
E nós acreditamos que lá no fundo, ele sempre foi assim, dengoso.
O "bicão" permaneceu um tempo, mas hoje é pouco visto.Acho que relaxou.
Reaprendeu a viver. Não parou para lamentar os erros, não ficou se justificando. Seguiu em frente.
Minha mãe, como se não tivesse participação na escolha, diz que temos sorte de tê-lo como pai.
Um dia, depois de me ver brigar com ela, ele me chamou de canto e disse: "Não quero mais que brigue com ela. Sei que ela é difícil, você também é. Mas ela é a dona dessa casa, é a minha companheira. Depende mais de você que não briguem."
Eu tive certeza que ela teve sorte de tê-lo como esposo [Pomposo né? É assim que ela gosta de falar dele... es-po-so].
Antes, principalmente na época em que ele magoou minha irmã mais velha, eu ficava chateada quando diziam o quanto ele me amava, que eu era a "queridinha".
Hoje, me divirto e me emociono quando lembro dele saindo correndo, de pijama e com uma vassoura na mão, atrás dos moleques que chutavam e machucavam o Ipê [sim, com maiúscula] que ainda era novo, em frente da nossa casa. "O Ipê do sô Zé!".
Fico surpresa quando vejo a beleza e o tamanho das rosas que ele traz para a minha mãe enfeitar a casa. Plantadas, regadas e colhidas por ele.
Só me preocupa quando minha mãe liga, reclamando que ele subiu no telhado mesmo depois de o médico dizer que ele não pode ficar abusando do físico.
Todos em casa são felizes por ter podido ver o antes rechonchudo, ameaçado de entrar na faca, se disciplinar e ficar esbelto,
porque gosta muito de viver.
Como diria uma amiga minha, ele se sente bem no mundo.
No último dia 26 de outubro
meu pai completou 80 anos.
Quis comemorar.
Criança que ainda é, fez questão ele mesmo de ligar para os convidados. Minha sobrinha dizia: "Vocês falavam que eu estava ansiosa e empolgada com minha festa de quinze anos, mas o vô está muito mais insuportável que eu!"
Mal sabe ela que ele renasceu há pouco menos de 15 anos.
E se antes eu ficava brava e até me sentia meio culpada quando meus irmãos falavam que era impressionante como ele gosta de mim, hoje eu falo de boca cheia, que a recíproca é mais que verdadeira.
Ele é meu queridinho. É meu amor, meu norte. [Sem essa de complexo de Electra!!!]
E se acredito em outras vidas, um dos culpados é ele, mesmo sendo católico. Talvez por conformidade mais do que crença, acho que "aqui" será muito pouco para tê-lo por perto.
Se você conhecesse meu pai, também se emocionaria ao ouví-lo dizer, sempre que pode:
"Eu sou muito feliz. Só não digo que sou feliz demais, porque felicidade nunca é demais!"
Só esta frase, já não é uma lição de vida?
postado por: DANIELA DOMINGUES 10:58 AM